Jornal Digital Regional
Nº 529: 5/11 Mar 11
(Semanal - Sábados)






Email Assinaturas Ficha Técnica Publicidade 1ª Pág.
Cultura Desporto Freguesias Óbitos Política Pescas Roteiro

Uma Torre na foz do Minho nos finais do século XII

Raríssimos são os relatos escritos que nos chegam dos confins da história trazendo-nos novas do território que hoje constitui o concelho de Caminha num tempo tão recuado como os finais do século XII, reinava Sancho I, filho de Afonso Henriques e segundo rei de Portugal. Mais raro ainda se as inéditas informações são de fonte segura e vêm acrescentar conhecimento ao pouco que sabemos sobre esta época de reconquista e presúria, decisiva para a formação da nacionalidade e a fixação da secular fronteira que ainda hoje divide os que nascem de um e outro lado do rio Minho.

Trata-se concretamente de um relato atribuído ao cronista inglês Roger Howden que acompanhou o rei Ricardo Coração de Leão na terceira cruzada à Terra Santa, integrando a frota que largou do porto de Dartmouth na Páscoa de 1190 e arribou a Marselha a 22 de Agosto desse ano. Howden terá pouco depois regressado à Inglaterra na comitiva do rei francês Filipe Augusto, um dado factual que, entre muitos outros, permite datar o texto entre o Verão de 1191 e a Primavera de 1193. Como sucedia correntemente na era medieval, o manuscrito intitulado "De viis maris et de cognitione terrarum et montium et de periculis diversis in eisdem" ("As vias marítimas, a identificação das terras e montes e os diversos perigos que neles existem") seria depois copiado em épocas posteriores por diversos autores. Foram precisamente duas cópias datadas do século XV que o historiador francês Patrick Gautier Dalché publicou e comentou, em conjunto com outros documentos do mesmo autor, no seu livro Du Yorkshire a L'Inde. Une "géographie" urbaine et maritime de la fin du XII siécle (Droz, 2005). O relato do cronista inglês está agora a merecer a atenção da comunidade científica portuguesa graças à divulgação de Luís Fraga da Silva, do dinâmico Campo Arqueológico de Tavira que, justamente, salienta a sua importância para o conhecimento dos acidentes costeiros e da geografia política ibérica na época em causa. Este arqueólogo transcreveu o relato correspondente à Península Ibérica (ver impromto.blogspot.com/2010/12/de-viis-maris.html) mas apenas traduziu a parte que refere a costa entre Lisboa e o Estreito de Gibraltar.

Solicitámos pois a ajuda de um eminente latinista - o Professor Manuel Francisco Ramos, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - que amavelmente acedeu em traduzir o excerto da descrição do cronista inglês relativo à zona compreendida entre a ria de Pontevedra e a foz do rio Lima. Cotejando o original em latim com a tradução para a língua portuguesa, procurámos então identificar os topónimos que Roger Howden cita no seu relato, o que não se revelaria particularmente difícil. Encontramos assim menções à actual Baiona (Mior), ao mosteiro cisterciense de Santa Maria de Oia (Hoy) ou à cidade de Tui (Tine). Em contrapartida, foi com grande surpresa que deparámos com a menção à existência de uma torre de pedra (turris lapidea) à entrada do lado português da foz do Minho (Mine), parte a que o inglês também chama Mourisca - a localização é indiscutível pela dupla alusão ao relevo do lado galego e a uma ilha, certamente a Ínsua. As dimensões deste torreão não nos são reveladas e o seu exacto posicionamento é igualmente incerto - "junto à entrada do porto do Minho" - podendo situar-se num qualquer ponto do Camarido ou mais próximo do lugar do actual centro histórico da vila de Caminha. Seja como for, cremos ser a primeira vez que obtemos um relato directo e testemunhal que dá conta de uma edificação em local ribeirinho da foz do Minho remontando ao século XII, de indefinidos construtores mas provavelmente obra cristã da reconquista embora não seja impossível uma origem anterior. Sem dúvida, um dado de grande significado histórico que, contudo, não chega para suportar a eventualidade, por vezes aventada mas, até ao momento, pouco fundamentada, de aqui existir um castelo ou muralha anteriores aos meados da centúria seguinte, quando o rei Afonso III empreendeu o levantamento de uma cerca oval na confluência dos rios Coura e Minho. Note-se que, em momento algum, o cronista refere a existência de uma povoação ou muro - ao contrário, por exemplo do que faz para Pontevedra ou Tui.

Ainda relevante no relato do cronista inglês, é a sua observação sobre o assoreamento da foz do rio - "de uma e outra parte da ilha que se encontra à entrada do porto do Minho os grandes navios não conseguem entrar, a não ser com a maré alta" -, o que vem de certo modo contrariar a habitual suposição de um estuário profundo e de fácil navegabilidade nestes tempos medievais. Roger Howden não deixa porém de referir que a "água do Minho" se tratava de um "bom porto", certamente um sítio estratégico para merecer a construção de uma torre de atalaia.

Não sendo especialistas da época, esperamos sinceramente que esta importante e quase inédita fonte escrita do século XII seja explorada pelos medievalistas portugueses que melhor conhecem o Norte e o Minho. Pela nossa parte, com a devida vénia aos amigos que nos deram conhecimento deste documento e aos investigadores antes citados, aqui deixamos a transcrição traduzida do excerto que temos vindo a tratar (os itálicos e os negritos são da nossa responsabilidade):

"(…) Depois, na terra do referido rei, não longe de Mior, [certamente Baiona, cujo rio que aí desagua se chama ainda hoje Minor] existe uma grande abadia à beira-mar que se chama mosteiro de Hoy [Oia], o qual possui altas torres a que chamam torres de Hoy, mas não existe aí porto nem ancoradouro. Na terra do mesmo rei, não longe dessa abadia, há um bom porto que se chama água do Minho, à entrada do qual existe um monte bifurcado que é deixado à esquerda de quem entra [óbvia alusão a Santa Tegra]. E na entrada, no meio do porto, há uma ilha [certamente a Ínsua]. E aquela água do Minho divide a terra do rei de Santiago da terra do rei de Portugal. E a montante daquela água do Minho, na terra do rei de Santiago, existe uma boa cidade que se chama Tui a qual dista da entrada do seu porto cerca de quatro milhas. E quando a água do Minho chega à referida ilha que se encontra na entrada do porto divide-se em duas partes: a parte da água que fica na direcção da terra do rei de Santiago chama-se Galega, daí que toda a terra do rei de Santiago se chame Galiza; a parte da água que dá para a terra do rei de Portugal diz-se Mourisca porque provém de terra dos Mouros.

V.1. Na terra do rei de Portugal, junto à entrada do porto do Minho, da parte que se chama Mourisca, existe uma torre feita de pedra. De referir também que de uma e outra parte da ilha que se encontra à entrada do porto do Minho os grandes navios não conseguem entrar, a não ser com a maré alta. Na terra do referido rei, não longe da água que se chama Mourisca, existe um bom porto que se chama água do Lima. Aí está situado um grande monte que se chama monte de Onur [quase certa alusão ao Monte de Santa Luzia]; a entrada do porto situa-se entre esse monte e as brancas areias que se encontram da outra parte; e aquele monte deve ser deixado à esquerda de quem entra e a areia à direita. Também é de referir que quase todas as areias que daí existem até Lisboa são brancas. (…)".

pntbento@mail.telepac.pt, 5 de Março de 2011